Howth e Giant’s Causeway: duas escapadas clássicas em Dublin

irlanda2016-3092-4//embedr.flickr.com/assets/client-code.js

Dublin, a cidade de James Joyce. Foi aqui que o grande escritor irlandês se inspirou para arriscar algumas das canetadas mais ousadas da literatura universal. Ulysses, sua obra magna, foi quase que um experimento literário anárquico – para você ter uma ideia, o último capítulo desse romance tem dezenas de páginas e, acredite, é composto por uma única frase. São nada menos que 4.391 palavras! Imagino que, à época, os editores devem ter ido à loucura.

De fato, Dublin é cheia de peculiaridades. E não faltam atrativos para os viajantes que se aventuram por essa capital estilosa e serena. A propósito, é uma das cidades europeias mais frequentadas por brasileiros, já que muitos – muitos mesmo – optam por estudar inglês por essas bandas. O motivo é simples: o visto de estudo permite também que o sujeito trabalhe. Mas, voltando aos atrativos turísticos, o be-a-bá dublinense inclui visitar atrações como o magnífico Trinity College; o agradabilíssimo National Botanic Gardens; o imponente National Museum of Ireland; a linda e indefectível St Patrick’s Cathedral; entre tantas outras coisas bacanas. Mas, sejamos honestos, um dos grandes chamarizes de Dublin é a onipresença de incontáveis bares e pubs, verdadeiras marcas registradas da capital irlandesa.

Aliás, não se culpe: estar em Dublin é motivo suficiente para se permitir entortar o caneco um tanto além da conta. Mas a ressaca é inexorável. E para encarar esse momento tão lamurioso e sombrio da vida etílica, conheço duas categorias de seres humanos. O primeiro tipo é daqueles que ficam mofando no quarto – seja para lembrar com saudosismo as glórias da noitada anterior, seja para lamentar os preciosos euros despendidos em tantos pints de Guiness. Já o segundo tipo é daqueles viajantes mais hiperativos, que, em vez de aderir à inércia do sedentarismo pós-manguaça, preferem arejar a cabeça nalgum lugar preferencialmente afastado do caos urbano e das seduções da vida profana.

É para esse segundo tipo de forasteiro que tenho duas boas dicas. São duas escapadas clássicas, facilmente acessíveis a partir de Dublin. A primeira é a península de Howth, na costa do mar da Irlanda. E a segunda é o Giant’s Causeway, na região setentrional da Irlanda do Norte – sem grilo, pois, tecnicamente, mesmo sendo outro país, é quase como ir passear num outro bairro.

Howth
Nem precisa levantar tão cedo. Em praticamente qualquer estação de Dublin, os trens para Howth são frequentes – dependendo do dia, a cada meia hora sai um. E a jornada, que custa pouco mais de seis euros, leva cerca de 40 minutos. Howth é quase como uma pequena vila pesqueira: tem um cais, um pier, um pequeno porto… E muitos restaurantes que servem frutos do mar. Com sorte, é até possível avistar focas ao longo da costa. Elas zanzam por ali para alguma espécie de parada técnica durante suas longas jornadas de migração.

Outra atração de Howth são as ruínas de um pequeno castelo, além de uma igrejinha de pedra para lá de simpática rodeada por flores da estação e gramados verdejantes.

O maior atrativo dessa península, no entanto, é a trilha que costeia o oceano. Há dois principais trajetos: um leva cerca de 40 minutos; outro, cerca de três horas. Em qualquer caso, a recompensa visual vale a pena. São encostas, declives, terrenos rochosos a contrastar com o verde e, como bônus, a brisa daquele mar azul que se perde de vista no distante horizonte. Ao final do trajeto, chega-se em uma espécie de vila. E, como estamos na Irlanda, é claro que há nessa vila um pub. Sim, um pub. Mas, ei, um momento… Afinal, o objetivo dessa empreitada não era justamente dar um jeito naquela ressaca? Sem grilo. Uma cervejinha a mais não mata ninguém. Na pior das hipóteses, basta pedir um suco de laranja. Fique atento, porém, pois esse pub é caro. Se suas economias estão em risco, quase em frente ao local existe uma espécie de mercadinho – onde você pode comprar de tudo, inclusive um rango bem mais em conta. Para voltar à estação de trem, você tem duas alternativas: ou retorna caminhando pelo mesmo trajeto; ou pega um ônibus, que, por menos de três euros, vai até a parte central de Howth.

Ireland | Howth//embedr.flickr.com/assets/client-code.js

Giant’s Causeway
A segunda dica para quem quer fugir do agito de Dublin é dar um rolé pela Irlanda do Norte e conhecer uma das formações geológicas mais intrigantes da Europa: o Giant’s Causeway. São mais de 40 mil colunas de basalto – em formas geométricas muito peculiares que são, em sua maioria, colunas pentagonais, hexagonais ou de sete lados. Essas colunas, [dizem os entendidos], foram formadas entre 50 e 60 milhões de anos atrás. Num belo dia, ou melhor, numa bela época, havia tanta lava se movimentando nas entranhas da Terra que parte desse material, ao entrar em contato com as águas oceânicas, se resfriou e acabou formando essas belas formas rochosas que hoje são uma das principais atrações da Irlanda do Norte.

O rito desse passeio normalmente inclui dois outros pontos de interesse que ficam bem próximos do Giant’s Causeway. O primeiro é o castelo de Dunluce, algo naquele estilo ‘ruínas de pedra numa pirambeira de mar’. O segundo é a Carrick-a-rope, uma simpática ponte de corda que liga duas formações rochosas de beleza quase paradisíaca – isto é, quando a meteorologia colabora. Em tempo nublado ou chuvoso, a paisagem é provavelmente monótona. Mas em dias ensolarados, o viajante encontrará sem dúvida uma das vistas mais lindas da Irlanda.

Atenção: tanto o Giant’s Causeway quanto a Carrick-a-rope demandam um certo esforço de caminhada. Nada terrível. Mas prepare-se para andar por, talvez, uma meia horinha até chegar aos locais de interesse. Não esqueça sua garrafa de água, nem seu mantimento estratégico de chocolate, fruta, cereal ou coisa que o valha.

A partir de Dublin, a melhor forma de se conhecer esses lugares é provavelmente alugando um carro – para quem quer gastar mais e ter o máximo possível de independência. A propósito, se a ideia é garantir fotos espetaculares, essa é a única alternativa possível. Pois ao longo de quase todo o dia, hordas de turistas desembarcam por lá. Com um carro alugado, porém, pode-se explorar o local naquele momento especial que, no jargão fotográfico, é conhecido como ‘hora dourada’. Falo do nascer e do pôr do sol.

Muitos optam pelos serviços turísticos. A agência [LoveIreland], por exemplo, oferece bons preços para o passeio. Com uma vantagem: você sai de Dublin pela manhã e volta no mesmo dia, por volta das oito horas da noite. O preço gira em torno dos 49 euros. Mais opções podem ser estudadas pelo [Dublin Visitor Centre]. Se você quer encarar esse trajeto por meio de transporte público, também é possível. Mas dá um pouco mais de trabalho. Primeiro, deve-se ir a Belfast. E, de lá, pega-se um ônibus para Coleraine, que é a cidadezinha mais próxima do Giant’s Causeway. Vantagem: sai mais barato, e esse esquema permite maior flexibilidade de tempo para curtir o passeio. Desvantagem: via transporte público, não será tão prático visitar, na mesma jornada, o Dunluce Castle e o Carrick-a-rope. Mas a decisão é sua.

De qualquer modo, se você perder o ônibus na ida ou na volta, não há motivos para se preocupar. Certamente haverá, nas imediações, algum bar ou pub para administrar o tempo ocioso. Afinal, você está na Irlanda. E aqui, em se tratando de bares e pubs, quem procura acha.

Northern Ireland | Giant's Causeway, Dunluce Castle, Carrick-a-rope//embedr.flickr.com/assets/client-code.js

 

Curiosidade 1: Os irlandeses se orgulham de sua cerveja mais celebrada no mundo, a *Guiness*. É uma cerveja do tipo escura. A fábrica fica em Dublin, às margens do rio Liffey. As águas desse rio eram tão poluídas que, reza uma piada local, é por isso que a *Guiness* é escura. Hoje, toda a produção local dessa bera é consumida pelos próprios irlandeses – e a *Guiness* que chega ao resto do mundo é, na verdade, produzida na Nigéria. Mas os irlandeses afirmam convictos que o sabor da *Guiness* local é imbatível.

Curiosidade 2: Você com certeza já viu, nas clássicas vinhetas de abertura dos filmes da MGM, um baita leão rugindo. Sete felinos já foram usados nessas vinhetas, mas o primeiro deles foi Slat, um leão nascido no zoológico de Dublin em 1919.

Reporting from Canary Wharf

Reuters' headquarters in London, UK

Thomson Reuters’ headquarters in London, UK

 

What a week! It’s a known fact that, over the past decades, the Brits have set the bar high when it comes to journalism quality standards. Indeed, some of the media outlets I most appreciate, as a science journalist, are from the UK: New Scientist, SciDev.Net, Nature, The Guardian, BBC… It was a true honour to have the opportunity to learn techniques of writing and reporting news at Reuters – surely one of the world’s most respected news agencies.

I’ve always felt comfortable in the realm of magazine-like feature science reporting – since that’s pretty much all I have been doing over the past years in my country. However, learning to report what we call “breaking news” was an experience that made me step out of my safety zone.

Last week’s workshop was a rather pleasant, friendly environment for learning, discussing – and, to some extent, practicing – the principles of the world-class journalism which is daily delivered by Reuters.

What secrets should we keep in mind while preparing for an interview? How to develop solid sourcing techniques? What are the legal dangers we are exposed to when working as a reporter? How to properly structure a paragraph and what to avoid when writing a headline? These were some of the practical advices we were taught during the course, with absolutely no space for boring stuff – as the energy and enthusiasm of the instructors were unparalleled!

 

The masters and the apprentices

Fuelled by loads of hot chocolate, coffee and tea, we had a rare chance to interact with some Reuters’ veterans – whose experience would teach us what no journalism textbook could ever do.

Over that windy week, we were introduced to Reuters’ photojournalism at its best – which made some of us rethink about the relevance and impact photography can potentially exert as a form of communication. If wisely used, images can be outstanding tools of conveying information in a more effective way. The Wider Image initiative is a remarkable example of that.

Multimedia reporting was another highlight of the week. In an era dominated by the omnipresence of digital technologies, what can a reporter do to tell a story in a more creative and compelling manner? The workshop’s attendees had their answers – inspired by the words of a true expert in the field, who, a couple of years back, was responsible for the implementation of multimedia storytelling strategies at Magnum (and what an amazing job that was). She reminded us that, regardless of good equipment or adequate material conditions, multimedia reporting has a lot to do with an old Robert Capa’s adagio: getting closer is the only way to tell a good story.

As one of Reuters’s mains strengths, financial journalism was also part of the week’s agenda. The mysteries of financial reporting were competently unveiled by a veteran, and it was quite surprising to realise that such genre, with which I have no familiarity at all, has a lot to do with science journalism, which is my own field of work. In the end, it’s all about translating a hermetic jargon into a plain, readable language. Just like a science writer, a financial journalist is expected to uncomplicate a bunch of weird terms — which were invented to scary us and are normally used by people merely to justify their big salaries. It reminds me of Albert Einstein. He once wrote that “most of the fundamental ideas of science are essentially simple, and may, as a rule, be expressed in a language comprehensible to everyone”.

Of course a reporting workshop wouldn’t be complete without a session on feature writing. And Reuters does have valuable inputs when it comes to in-depth investigation. Nowadays, it is very difficult for any news agency or for any other newspaper or magazine to come up with exclusive news. That’s because the internet has caused a major change in the global flow of information, and also because correspondents of major organisations are everywhere. As a result, pieces of general reporting tend to be too standardised and too similar to each other – regardless of where it is coming from. In such scenario, what can really differentiate a news organisation? The answer: as well as presenting impeccable coverage of breaking news, it has to master in-depth feature reporting.

 

The world in a classroom

Reuter’s Writing and reporting news workshop was also a remarkable cultural experience. How amazing it was to be in a classroom with 12 journalists from 11 different nationalities. As a young science reporter from a developing country, that was a particularly exciting opportunity.

I’m happy to have met top professionals from whom I learnt so much; and I’m honoured to have met incredible people who, in a beautiful city such as London, kindly shared their time with me.

 

Fonte: http://www.trust.org/item/20140226204948-p9io7/?source=quickview

Travel-writer, a saga final

Dois meses na estrada! Bolívia, Peru e Argentina foram os territórios que percorri – não preciso dizer que encarar essa aventura, na condição de travel-writer, foi uma experiência e tanto.

Pensa que escrever um guia é moleza? Que nada. Ao longo dos 8.937 Km de jornada, o número de informações coletadas foi quase astronômico.

Imagine que, em cada cidade, devemos visitar no mínimo uma dúzia de hotéis; mais alguns restaurantes; centros de informações turísticas; museus; praças; igrejas; outros museus; agências de turismo… Sem contar, é claro, os inúmeros passeios dos arredores!

Pois é. Aí vem a matemática. Multiplique todas essas variáveis pelo número de cidades em que o viajante bota seus pés – chega-se assim, em termos quantitativos, a um número, digamos, intimidador.

Certo. Depois de cumprido o itinerário, o sujeito finalmente chega ao conforto do lar, exausto da longa odisseia. Acabou o trabalho? Nada. Ele mal começou. Agora vem a parte mais complicada: organizar o material coletado. O que significa isso? Bem, a imagem diz tudo:

Total: 6,2 kg de papel

Beleza! Se o tempo de estrada foi de praticamente dois meses, o tempo com a bunda quadrada em frente ao computador foi de quase três. Organizar essa papelada não foi lá tão fácil. E, mais complicado ainda, foi rever os três blocos de anotações – em cujas páginas eu escrevera em caligrafias caóticas que desafiam a mais apurada cognição. “Que diabos eu anotei aqui?”

Mas deu tudo certo. Material apurado, organizado, redigido e por fim revisado. Agora, passamos a bola pra edição – outro longo processo que ainda deverá levar alguns meses.

O importante é que voltei são e salvo. Vivo! A sensação? “A melhor”, imitando o parceiro de empreitada Gustavo Sebben.

Pensando bem, correr de um cachorro sarnento ou me esquivar de um traficante barra-pesada nem foi tão complicado assim. Ter sido quase roubado e emplacar um kotegaeshi no espertalhão idem. Encarar o Trem da Morte, no segundo pior vagão, também foi café pequeno. As imprevisibilidades bolivianas, os extremos do altiplano, as desventuras no sul do Peru, o calor do deserto, o efeito-altitude, dormir no chão duro e gelado em Humahuaca… Bah, quer saber? Eu faria de novo! (Mas dessa vez com uma caligrafia mais caprichada).

Deve haver algo de misterioso nesse homo sapiens sapiens tapado, mamífero vertebrado que curte tanto as incertezas da estrada e não cansa de perseguir o distante horizonte – é instigante saber que ele estará sempre esperando por nós!

Saudações, viajantes. Foi uma honra trabalhar com todos vocês!

Hasta la vista!

Bolívia, Sul do Peru e Noroeste Argentino. Total: 8.937 Km

Anita, a alpaca

Anita

Não sou Ace Ventura, mas converso com animais. Trago aqui, em primeira mão, entrevista inédita com Anita, a alpaca mais gente fina da cordilheira dos Andes. 

Lá estava eu, na estrada peruana que liga Arequipa ao Valle del Colca. Destino maneiro, elencado entre os melhores passeios que se pode fazer no Peru. Pelo caminho, é possível avistar uma bicharada bacana: lhamas, alpacas e, com mais sorte, até mesmo vicunhas.

Pois é. Sabe que a lhama é a grande estrela dos Andes. No mundo inteiro se fala dela – afinal, o simpático camelídeo se tornou uma espécie de ícone entre os bichos andinos. Mas, para alguns, essa fama não passa de uma grande injustiça!

Explico: a família dos camelídeos andinos é grande. Além da lhama, também fazem parte do time as alpacas, as vicunhas e os guanacos. A criançada é unânime: “todos eles são bonitinhos”. Por que diabos, então, apenas a lhama leva os louros da fama?

Pois bem, pra esclarecer o impasse, resolvi levar um papo com Anita, uma simpática alpaca que encontrei no caminho pro Valle del Colca. Ela tem sete anos, e, graduada em direito, atualmente preside o Consejo Altiplanico de las Alpacas (CAA). É membro do American Concil for Alpaca Rights (ACAR), e, há três anos, é militante do Sindicato de las Alpacas Andinas (SAA).

Anita é categórica: “As alpacas são bem mais bonitinhas que as lhamas”, observa convicta. E, segundo ela, o assunto tem dado muito pano pra manga. “A cada ano, mais e mais turistas visitam os Andes, e todos saem dizendo que somos os animais mais fofinhos da cordilheira.” De fato, não há gringo que saia daqui sem tirar pelo menos uma foto com as simpáticas e fotogênicas alpacas. “Somos muito bonitinhas, sim! E estamos fartas dessa hegemonia das lhamas!”, protesta Anita.

Mas se por um lado ela é uma militante ferrenha, por outro ela é um doce de alpaca. Mesmo em sua atribulada agenda, ainda encontra tempo pra relaxar. “Esse friozinho aqui do altiplano é uma maravilha”, comenta, orgulhando-se da geografia local.

Torcedora do Alianza Lima (o “timão” do Peru), Anita não esconde suas mágoas acerca do futebol peruano. “Se bem que, ultimamente, eu tenho curtido mesmo é assistir aos jogos do Bahia pela TV a cabo”, confessa, dando a entender que está propensa a reavaliar sua opção de time. Mas, esportes à parte, ela gosta mesmo é de discutir política – e promete que, se depender dela, a supremacia das lhamas está prestes a terminar. “Elas vão ver só uma coisa”, cutuca em tom ameaçador.

Em um papo descontraído, Anita revela aos leitores de O Viajante algumas intrigas que cercam a história dos amáveis e carismáticos camelídeos andinos. E, de quebra, dá uma aula de história aos viajantes que se encantam pelas aventuras do altiplano.

Alpaca posando para foto, no Valle del Colca

***

Anita, como é a vida das alpacas aqui no Valle Del Colca?

É tranquila. Vivemos aqui na reserva natural do vale, protegida por lei, e todas nós gostamos muito daqui. São quase doze mil km², tem espaço pra todo mundo. Clima excelente! O melhor de tudo é que temos uma grama deliciosa.

O intenso fluxo de turistas incomoda vocês?

Olha, o turismo no Peru começou pra valer há uns dez anos. No início estranhamos um pouco. Mas com o tempo percebemos que os turistas são gente fina (além disso, são importantíssimos pra economia do nosso país. A indústria turística responde por parte considerável de nosso PIB: é a terceira atividade econômica mais rentável do país. Cresce 25% ao ano e só fica atrás das indústrias de pesca e mineração).

Eu diria que as alpacas têm seus méritos nesse quadro. Pois uma das coisas que os turistas mais curtem é tirar fotos com a gente. E com os nossos filhotes, então? Não há quem resista! Eles sempre dizem a mesma coisa, eu até já decorei: “Hey, look! It´s a baby alpaca, so cute!”.

Em geral, vocês têm uma boa relação com os humanos, certo?

Absolutamente. Temos uma interação bastante simbiótica e salutar – pelo menos aqui no Valle del Colca. Povos antigos como os Collaguas e os Cabanas, que viviam aqui muito antes dos incas, nos domesticaram há mais de quatro mil anos. Desde então temos compartilhado uma troca mútua de cordialidade e serviços. Os humanos nos dão abrigo e proteção; em troca, fornecemos a eles nossa lã.

Lã! A lã de alpaca é famosa no mundo todo, conhecida por ser macia e quentinha. Qual é o segredo pra manter essas qualidades?

Fomos abençoadas com uma genética favorável. Exercícios físicos pela manhã e uma boa alimentação também ajudam bastante. Ah, claro, e sessões de meditação – que ajudam a controlar o estresse e a manter o metabolismo nos trinques. Tudo isso contribui para a qualidade da nossa lã.

Quais são as principais diferenças entre as lãs de lhama, alpaca e vicunha?

A lã da lhama é mais grosseira. Não é de boa qualidade, pois não pode ser tingida e, além disso, pinica. Não dura muitas lavagens: vai estragar rápido ou mesmo encolher. Por isso custa bem menos. Uma chompa de lã de lhama [chompa é o nome daquelas blusas típicas que se compra no Peru, na Bolívia] não vai custar mais que U$D 10 ou U$D 15.

A lhama, diferente da alpaca, costuma ter lã em coloração mesclada

Já a lã de alpaca é mais refinada. Bem mais macia, quentinha e durável. Além disso pode ser tingida de várias cores. Uma boa chompa vai te custar, talvez, uns U$S 30 ou U$D 40. Só fico de cara quando misturam. Tem alguns comerciantes malandros que vendem gato por lebre: dizem que é lã pura de alpaca, mas na verdade é misturada com lã de ovelha. Pobre turista, que não sabe identificar a diferença – muitos são enganados. O segredo é não comprar em qualquer lugar. Tem que comprar em lojas de confiança, que geralmente não são essas que encontramos em cada esquina. Ah, outra dica: quando for lavar qualquer artigo em lã de alpaca, tem que deixar secar naturalmente; não pode torcer. Se torcer, já era, vai estragar.

Já a lã de vicunha, bem, é um caso à parte. É um verdadeiro artigo de luxo, e pode atingir preços altíssimos. Um casaco pode facilmente custar uns U$D 300, em Arequipa! Na Europa sai por três vezes mais. Trata-se de uma lã muito fina, bem quentinha também, que tem um visual muito bacana. Mas pra te falar a verdade, acho que é coisa de madame.

Vicunha passeando. Ao fundo, o imponente vulcão El Misti

Nossa, mas por que a lã de vicunha é tão cara?

Resumindo: porque a vicunha é um animal selvagem de difícil domesticação. Ao contrário de nós, lhamas e alpacas, nossas primas vicunhas são bem ariscas. Ao longo da história alguns grupos humanos tentaram domesticá-la, mas sem sucesso. Diz a lenda que, quando aprisionadas, elas entram em depressão e fazem de tudo pra fugir, causando problemas tanto para os donos quanto para elas próprias. Há relatos – não sei se acredito, mas pode muito bem ser verdade – segundo os quais algumas vicunhas, aprisionadas em currais, se atiravam contra as cercas tentando fugir, e assim acabavam se machucando ou morrendo. Enfim, é um animal selvagem por natureza, e não se adapta a ambientes artificiais de domesticação. Por isso elas são mantidas em seu ambiente natural. E, se alguém quiser sua lã, que vá buscar. Por isso é tão cara. Além disso, é uma lã muito, muito fininha, e também muito sensível. Requer cuidados especiais, e não é fácil de se trabalhar com ela.

Hoje, no entanto, alguns humanos deram um jeito de conseguir a tal lã. Deixam as vicunhas soltas em determinadas áreas pelos campos andinos, e conseguem uma relação tranquila. Parece que está funcionando. Mas ainda sai caro o produto final.

Fale-nos sobre a família dos camelídeos…

Bem, nossa família se chama camelidae, e compreende os chamados mamíferos artiodáctilos ruminantes. Somos animais exclusivamente herbívoros, e temos um aparelho digestivo com três câmaras (isso nos distingue dos demais mamíferos ruminantes, como a vaca, por exemplo, que têm quatro câmaras digestivas). Outro traço que nos diferencia é o lábio superior, que é dividido em duas partes; um dente a mais no maxilar superior; e células sanguíneas elípticas, em vez de circulares.

Nossos principais representantes são o camelo, o dromedário, a lhama, a alpaca (eu!), a vicunha e o guanaco. Vivemos espalhados pelo mundo, já que temos parentes na América do Sul, África e Ásia.

Herbívoros, hein? Bacana, eu sou vegetariano.

Maneiro. Gostamos muito dos humanos vegetarianos, por razões óbvias. Mas tem quem goste de mandar vê na nossa carne. Entendemos. Mas é complicado.

Vocês, camelídeos, têm uma boa carne?

Como vou saber? Eu nunca comi, zé mané! Mas ouço alguns humanos comentando o assunto. Dizem eles que, dentre as carnes vermelhas, a da lhama é uma das mais magras. Colesterol quase zero. Não é muito macia, mas é saborosa. Já a carne de alpaca é mais suculenta. É o que dizem por aí.

Bem, mas você precisa entender que comer carne, na sociedade contemporânea ocidental, é um hábito consolidado. Talvez não haja mal nenhum nisso… É preciso respeitar a opção alimentar de cada um, não é mesmo?

Sei lá, viu? Nós, alpacas, somos a favor do vegetarianismo. Mesmo sabendo que nossa carne é bem cobiçada. Isso é bom por um lado, pois valoriza nossa presença nos Andes. Mas, por outro lado, é triste saber que algumas de nossas irmãs estão sendo criadas unicamente para que, um dia, sejam mortas para terminar suas existências no prato de algum humano egoísta e faminto. Ficamos muito tristes quando nos tratam como mera comida. Somos seres sensíveis e afetivos, e nos deprimimos ao perceber que alguns nos criam para um dia nos devorar. Pergunta pras criancinhas se elas teriam coragem de nos comer? Nunca, pois elas são amáveis e sabem retribuir o nosso carinho! Alpacas são bonitinhas demais para terminarem em garfadas cruéis.

Hum, é complicado. Algo a dizer sobre os turistas brasileiros?

Eles são gente boa. Tem aqueles que falam um portunhol canhestro de quinta categoria (tipo você), mas não dá nada. É divertido. No geral, gostamos dos hermanos brasileiros e latinos de forma geral.

E quanto aos europeus e norte-americanos?

Depende. A maioria é gente fina também. Mas tem uma piazada que me dá nos nervos. Tenho visto – é muito comum – os jovens com 20, 25 anos que saem por aí nessas jornadas para curtir a vida. Estadunidenses, europeus, australianos, israelitas, japoneses… Para muitos, viajar é parte da própria cultura, um hábito social secularmente enraizado. Mas para outros, viajar é só uma chance a mais para comprar e experimentar essas coisas ilícitas que ­­os humanos tanto apreciam (até mesmo os brasileiros, aliás. Acho que nunca vou entender isso). Ainda mais aqui no Peru, e na Bolívia também. A piazada chega e acha que já pode sair apavorando, fumando tudo, cheirando tudo. Pra eles, isso é uma forma de “liberdade”. Pra mim, que conheço a natureza e sou parte dela, é apenas uma forma de aprisionamento. Vocês, humanos, são esquisitos.

Bah, não venha com moralismo pra cima de mim, Anita. Deixa a piazada curtir…

Não é moralismo. É só um estilo de vida. Cada um na sua. Para nós, um dos valores mais caros ainda é o bem estar pleno, que envolve saúde e integridade mental (do contrário, aliás, não teríamos essa lã macia e sedosa que vocês compram, amigão). Tudo bem o pessoal querer chapar o coco, desde que não fiquem me pentelhando pra que eu entre na onda deles, saca?

Entendo. Falando nisso, a coca atrai muita gente pra cá, não?

Sem dúvida. A folha de coca é parte de nossa cultura. Há milênios os povos andinos a usam para três finalidades: acelerar a circulação dos glóbulos vermelhos, melhorando assim a absorção do oxigênio aqui na altitude; amenizar a sensação de fome; e amenizar o cansaço, como uma espécie de estimulante natural. Nunca tivemos problemas com a folha de coca.

Acontece que é só o europeu chegar aqui, que já transforma uma tradição milenar em veneno. Tudo vira lucro, até mesmo o infortúnio de seus próprios irmãos. Fazem da coca uma fonte de destruição e degradação para sua própria sociedade – humanos são muito burros. Basta misturar acetona e mais algumas porcarias, que a coca (outrora sagrada para os povos andinos) se transforma em cocaína (sagrada para o lucro do mercado internacional do tráfico).

Com uma tonelada de folhas, se pode extrair talvez um grama de cocaína – vendida na Europa por algo entre 50 e 75 euros. Aqui é bem mais barato, evidentemente. Menos da metade disso.

Assunto complexo a tal da coca…

Pois é. Fico muito de cara com certos aspectos da sociedade contemporânea. O mais irônico é que alguns ainda chamam isso de “progresso civilizatório”. Que progresso é esse? Fluxos econômicos opressores e desiguais que mantêm a pobreza do sul e garantem o sucesso do norte? Bem, isso não funciona, porque esse “sucesso” se torna frágil a partir do momento em que observamos manifestações sociais as mais doentias – como um consumo cada vez mais insano de antidepressivos, índices de suicídio que dançam muito acima da linha do razoável, competitividade excludente em todos os setores da convivência… Assim são as sociedades ditas “evoluídas” de nossa era. Suécia, Japão, Estados Unidos, Canadá e por aí vai. São os tais dos países ricos. Civilização do progresso? Que grande piada!

Uau! Sua avaliação acerca de nosso desenvolvimento civilizatório não é das melhores.

Não é pra menos.

E as civilizações do passado? Vamos falar agora sobre os antigos povos andinos. Além dos incas, muitas outras civilizações incríveis habitaram o altiplano, confere?

Sem dúvida! Os livros de história estão repletos de referências aos incas. Mas esquecem de mencionar as demais civilizações incríveis que habitaram essas terras altas. Veja: os incas passaram a ter alguma relevância solamentea partir do século treze. O que, em termos arqueológicos, é super recente. Temos uma história conhecida de mais de quatro mil anos, desde os povos nômades que inicialmente habitaram nossa terra – os conhecemos hoje como Viscachani, que, segundo alguns, estiveram por aqui desde dez mil anos antes de Cristo!

Talvez o povo mais fascinante que pisou nessas terras foi o que deu origem à civilização tiwanaku – que teve seu florescimento por volta de 1580 antes de Cristo; e seu declínio por volta de 1200, já na era cristã.

Tiwanaku! Legal. Estive em um museu dedicado a essa cultura, próximo às ruínas dessa civilização, lá na Bolívia.

Sim, um museu bacana. Se bem que o governo boliviano merece um puxão de orelha, já que alguns crânios que estavam lá tiveram de ser removidos. Sabe por quê? Porque tinha goteira (sim, GOTEIRA) no interior do museu, bem no local onde estavam preservados os artefatos. Situação bizarra, descuido total com o patrimônio arqueológico. Mas espero que isso esteja mudando.

Ruínas de Tiwanaku

O que te fascina tanto a respeito da civilização tiwanaku?

Foi um povo muitíssimo interessante. Dominavam técnicas avançadas de metalurgia. “Tá, e daí?”, você vai perguntar. Acontece que, mesmo com esse domínio, jamais se encontrou qualquer vestígio de material bélico nas escavações arqueológicas. Nada de armas; apenas artefatos agrícolas, utensílios cotidianos. O que isso significa? Para alguns arqueólogos, significa que se tratava de um povo extremamente pacífico.

Há indícios também de que era uma sociedade matriarcal e igualitária, muito diferente do que estamos acostumados a ver e ouvir por aí. Viveram em um território que abrange mais ou menos 600 mil km aos arredores do Titicaca.

Outro aspecto interessantíssimo dessa civilização é a deformação de crânios. Ao redor das cabeças de certas crianças, eram colocadas faixas e moldes, de forma a direcionar o crescimento do crânio para que este atingisse uma determinada forma mais alongada do que a natural. Acredita-se que as crianças submetidas a esse processo eram selecionadas a dedo pelos velhos sábios, que nelas viam potencial para futuramente exercer funções estratégicas na sociedade. Assim, o crânio alongado era uma forma de distinção social. Mas, na verdade, existem várias teorias que tentam explicar as razões desta prática – observada em diversos povos pré-incaicos. Ainda é um mistério, que torna ainda mais fascinante a visita aos vestígios da civilização Tiahuanaco!

Uau!

É. O pessoal era fera. E ainda tinha uma medicina de primeiríssima.

Anita, algum recado para os visitantes brasileiros, especialmente para os leitores de O Viajante?

Sim! Quando visitarem os Andes, não esqueçam que essas montanhas são sagradas para nossa cultura. Levem para casa não apenas memórias das paisagens incríveis que temos aqui – nossos imponentes picos nevados, vales sem fim e planícies vibrantes. Levem também as lembranças do espírito ancestral das civilizações que aqui floresceram.

Você é tão sentimental…

Bah! Vai pastar, narigudo!

Anita despede-se e atravessa a rodovia. Adeus!

***

Taquile

No lado peruano do Titicaca, a ilha Taquile é uma surpresa agradável. São povoados tradicionais que, com mais ou menos verdade, ainda mantêm seu modo de vida tradicional.

É um lugar tão bonito, tão colorido. Mas, ironicamente, em minhas lentes não pude capturar cores. Ao contrário, foram elas que me capturaram. Ou melhor, me aprisionaram! Cores inesquecíveis – que, num ato confesso de egoísmo, insisto em guardar na minha própria memória.

Os matizes vibrantes de uma beleza indizível se tornam essências nos tons escuros de meus próprios medos, enquanto as formas impermanentes de um passado-futuro se traduzem nos tons claros-esbranquiçados de minhas asas.

São essas minhas impressões da ilha Taquile. Um paraíso da vida no Titicaca; um presente ancestral no espaço-tempo de minhas lembranças.

.

.

.

.

.

.

.

.

A iguaria de Puno

Quem diria! Cabeça de ovelha é uma iguaria boliviana. Digo, peruana (esse vai-e-vem-vem-e-vai às vezes confunde minha orientação geográfica). Acabo de chegar em Puno, e decidi dar uma passadinha pelo mercado central. Experiência antropológica inusitada. Entre as “delícias”, acho que a mais esquisita é essa tal cabeça de ovelha.

Cabeça de ovelha, uma das “delícias” de Puno

Mas afinal, como se come isso? “Oras, é simples”, me diz a senhora da venda. Anota aí:

1. Tu vem até o mercado e compra uma dessas apetitosas cabeças. Cada uma sai por 10 soles (escreve-se “s/10”. Esse “s/” é a notação da moeda peruana. Na cotação de hoje, R$1 sai por s/1,68. Ou seja, uma boa cabeça sai por quase 6 pilas).

2. Leva a cabeça pra casa. Aí tu pega aquele facão antigo do teu avô, bem afiado, e corta ela em quatro partes. Sem piedade. Essa é a parte difícil, já que o osso é bem duro. Mas com alguma insistência, e um tanto de força, tu consegue na boa.

3. Coloca a água pra ferver.

4. Na água, joga a cabeça, em pedaços e desmiolada. Diz que sai uma gosma de dentro, que, reza a lenda, é o cérebro.

5. Na água, adiciona algumas batatas. Bastante sal, pimentão, e temperos a gosto.

6. Espera umas três horas, e pronto. Durante a fervura, os miolos derretem todos. Segundo a tia, é o que dá à sopa um sabor único. Os olhos também, derretidos, dão ao caldo um toque bacana.

7. Chama alguns bons amigos; arruma a mesa; e agora é só servir.

Eis a janta de hoje, iguaria da casa. Se eu provei? Claro que não – já que essa sopa não é a melhor pedida pra um vegetariano. Em todo caso, fica a dica pros amigos onívoros: a saborosa sopa de cabeça de ovelha à la peruana.

Ilha do Sol

Destino imperdível. Entre os céus e as águas, um sonho insular. Azul, verde, pedras e gentes: a Ilha do Sol é um tesouro do Titicaca.

Aymaras da Isla del Sol

Arco-íris no Titicaca

Entrada de Challa, um dos três povoados da Isla del Sol

Burrinhos simpáticos

Ovelhinhas camaradas

Barro, pedra, telhas e palha

Anoitecendo na Isla del Sol: uma mistura de mágica e poesia