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Travel-writer, a saga final

Dois meses na estrada! Bolívia, Peru e Argentina foram os territórios que percorri – não preciso dizer que encarar essa aventura, na condição de travel-writer, foi uma experiência e tanto.

Pensa que escrever um guia é moleza? Que nada. Ao longo dos 8.937 Km de jornada, o número de informações coletadas foi quase astronômico.

Imagine que, em cada cidade, devemos visitar no mínimo uma dúzia de hotéis; mais alguns restaurantes; centros de informações turísticas; museus; praças; igrejas; outros museus; agências de turismo… Sem contar, é claro, os inúmeros passeios dos arredores!

Pois é. Aí vem a matemática. Multiplique todas essas variáveis pelo número de cidades em que o viajante bota seus pés – chega-se assim, em termos quantitativos, a um número, digamos, intimidador.

Certo. Depois de cumprido o itinerário, o sujeito finalmente chega ao conforto do lar, exausto da longa odisseia. Acabou o trabalho? Nada. Ele mal começou. Agora vem a parte mais complicada: organizar o material coletado. O que significa isso? Bem, a imagem diz tudo:

Total: 6,2 kg de papel

Beleza! Se o tempo de estrada foi de praticamente dois meses, o tempo com a bunda quadrada em frente ao computador foi de quase três. Organizar essa papelada não foi lá tão fácil. E, mais complicado ainda, foi rever os três blocos de anotações – em cujas páginas eu escrevera em caligrafias caóticas que desafiam a mais apurada cognição. “Que diabos eu anotei aqui?”

Mas deu tudo certo. Material apurado, organizado, redigido e por fim revisado. Agora, passamos a bola pra edição – outro longo processo que ainda deverá levar alguns meses.

O importante é que voltei são e salvo. Vivo! A sensação? “A melhor”, imitando o parceiro de empreitada Gustavo Sebben.

Pensando bem, correr de um cachorro sarnento ou me esquivar de um traficante barra-pesada nem foi tão complicado assim. Ter sido quase roubado e emplacar um kotegaeshi no espertalhão idem. Encarar o Trem da Morte, no segundo pior vagão, também foi café pequeno. As imprevisibilidades bolivianas, os extremos do altiplano, as desventuras no sul do Peru, o calor do deserto, o efeito-altitude, dormir no chão duro e gelado em Humahuaca… Bah, quer saber? Eu faria de novo! (Mas dessa vez com uma caligrafia mais caprichada).

Deve haver algo de misterioso nesse homo sapiens sapiens tapado, mamífero vertebrado que curte tanto as incertezas da estrada e não cansa de perseguir o distante horizonte – é instigante saber que ele estará sempre esperando por nós!

Saudações, viajantes. Foi uma honra trabalhar com todos vocês!

Hasta la vista!

Bolívia, Sul do Peru e Noroeste Argentino. Total: 8.937 Km

Anita, a alpaca

Anita

Não sou Ace Ventura, mas converso com animais. Trago aqui, em primeira mão, entrevista inédita com Anita, a alpaca mais gente fina da cordilheira dos Andes. 

Lá estava eu, na estrada peruana que liga Arequipa ao Valle del Colca. Destino maneiro, elencado entre os melhores passeios que se pode fazer no Peru. Pelo caminho, é possível avistar uma bicharada bacana: lhamas, alpacas e, com mais sorte, até mesmo vicunhas.

Pois é. Sabe que a lhama é a grande estrela dos Andes. No mundo inteiro se fala dela – afinal, o simpático camelídeo se tornou uma espécie de ícone entre os bichos andinos. Mas, para alguns, essa fama não passa de uma grande injustiça!

Explico: a família dos camelídeos andinos é grande. Além da lhama, também fazem parte do time as alpacas, as vicunhas e os guanacos. A criançada é unânime: “todos eles são bonitinhos”. Por que diabos, então, apenas a lhama leva os louros da fama?

Pois bem, pra esclarecer o impasse, resolvi levar um papo com Anita, uma simpática alpaca que encontrei no caminho pro Valle del Colca. Ela tem sete anos, e, graduada em direito, atualmente preside o Consejo Altiplanico de las Alpacas (CAA). É membro do American Concil for Alpaca Rights (ACAR), e, há três anos, é militante do Sindicato de las Alpacas Andinas (SAA).

Anita é categórica: “As alpacas são bem mais bonitinhas que as lhamas”, observa convicta. E, segundo ela, o assunto tem dado muito pano pra manga. “A cada ano, mais e mais turistas visitam os Andes, e todos saem dizendo que somos os animais mais fofinhos da cordilheira.” De fato, não há gringo que saia daqui sem tirar pelo menos uma foto com as simpáticas e fotogênicas alpacas. “Somos muito bonitinhas, sim! E estamos fartas dessa hegemonia das lhamas!”, protesta Anita.

Mas se por um lado ela é uma militante ferrenha, por outro ela é um doce de alpaca. Mesmo em sua atribulada agenda, ainda encontra tempo pra relaxar. “Esse friozinho aqui do altiplano é uma maravilha”, comenta, orgulhando-se da geografia local.

Torcedora do Alianza Lima (o “timão” do Peru), Anita não esconde suas mágoas acerca do futebol peruano. “Se bem que, ultimamente, eu tenho curtido mesmo é assistir aos jogos do Bahia pela TV a cabo”, confessa, dando a entender que está propensa a reavaliar sua opção de time. Mas, esportes à parte, ela gosta mesmo é de discutir política – e promete que, se depender dela, a supremacia das lhamas está prestes a terminar. “Elas vão ver só uma coisa”, cutuca em tom ameaçador.

Em um papo descontraído, Anita revela aos leitores de O Viajante algumas intrigas que cercam a história dos amáveis e carismáticos camelídeos andinos. E, de quebra, dá uma aula de história aos viajantes que se encantam pelas aventuras do altiplano.

Alpaca posando para foto, no Valle del Colca

***

Anita, como é a vida das alpacas aqui no Valle Del Colca?

É tranquila. Vivemos aqui na reserva natural do vale, protegida por lei, e todas nós gostamos muito daqui. São quase doze mil km², tem espaço pra todo mundo. Clima excelente! O melhor de tudo é que temos uma grama deliciosa.

O intenso fluxo de turistas incomoda vocês?

Olha, o turismo no Peru começou pra valer há uns dez anos. No início estranhamos um pouco. Mas com o tempo percebemos que os turistas são gente fina (além disso, são importantíssimos pra economia do nosso país. A indústria turística responde por parte considerável de nosso PIB: é a terceira atividade econômica mais rentável do país. Cresce 25% ao ano e só fica atrás das indústrias de pesca e mineração).

Eu diria que as alpacas têm seus méritos nesse quadro. Pois uma das coisas que os turistas mais curtem é tirar fotos com a gente. E com os nossos filhotes, então? Não há quem resista! Eles sempre dizem a mesma coisa, eu até já decorei: “Hey, look! It´s a baby alpaca, so cute!”.

Em geral, vocês têm uma boa relação com os humanos, certo?

Absolutamente. Temos uma interação bastante simbiótica e salutar – pelo menos aqui no Valle del Colca. Povos antigos como os Collaguas e os Cabanas, que viviam aqui muito antes dos incas, nos domesticaram há mais de quatro mil anos. Desde então temos compartilhado uma troca mútua de cordialidade e serviços. Os humanos nos dão abrigo e proteção; em troca, fornecemos a eles nossa lã.

Lã! A lã de alpaca é famosa no mundo todo, conhecida por ser macia e quentinha. Qual é o segredo pra manter essas qualidades?

Fomos abençoadas com uma genética favorável. Exercícios físicos pela manhã e uma boa alimentação também ajudam bastante. Ah, claro, e sessões de meditação – que ajudam a controlar o estresse e a manter o metabolismo nos trinques. Tudo isso contribui para a qualidade da nossa lã.

Quais são as principais diferenças entre as lãs de lhama, alpaca e vicunha?

A lã da lhama é mais grosseira. Não é de boa qualidade, pois não pode ser tingida e, além disso, pinica. Não dura muitas lavagens: vai estragar rápido ou mesmo encolher. Por isso custa bem menos. Uma chompa de lã de lhama [chompa é o nome daquelas blusas típicas que se compra no Peru, na Bolívia] não vai custar mais que U$D 10 ou U$D 15.

A lhama, diferente da alpaca, costuma ter lã em coloração mesclada

Já a lã de alpaca é mais refinada. Bem mais macia, quentinha e durável. Além disso pode ser tingida de várias cores. Uma boa chompa vai te custar, talvez, uns U$S 30 ou U$D 40. Só fico de cara quando misturam. Tem alguns comerciantes malandros que vendem gato por lebre: dizem que é lã pura de alpaca, mas na verdade é misturada com lã de ovelha. Pobre turista, que não sabe identificar a diferença – muitos são enganados. O segredo é não comprar em qualquer lugar. Tem que comprar em lojas de confiança, que geralmente não são essas que encontramos em cada esquina. Ah, outra dica: quando for lavar qualquer artigo em lã de alpaca, tem que deixar secar naturalmente; não pode torcer. Se torcer, já era, vai estragar.

Já a lã de vicunha, bem, é um caso à parte. É um verdadeiro artigo de luxo, e pode atingir preços altíssimos. Um casaco pode facilmente custar uns U$D 300, em Arequipa! Na Europa sai por três vezes mais. Trata-se de uma lã muito fina, bem quentinha também, que tem um visual muito bacana. Mas pra te falar a verdade, acho que é coisa de madame.

Vicunha passeando. Ao fundo, o imponente vulcão El Misti

Nossa, mas por que a lã de vicunha é tão cara?

Resumindo: porque a vicunha é um animal selvagem de difícil domesticação. Ao contrário de nós, lhamas e alpacas, nossas primas vicunhas são bem ariscas. Ao longo da história alguns grupos humanos tentaram domesticá-la, mas sem sucesso. Diz a lenda que, quando aprisionadas, elas entram em depressão e fazem de tudo pra fugir, causando problemas tanto para os donos quanto para elas próprias. Há relatos – não sei se acredito, mas pode muito bem ser verdade – segundo os quais algumas vicunhas, aprisionadas em currais, se atiravam contra as cercas tentando fugir, e assim acabavam se machucando ou morrendo. Enfim, é um animal selvagem por natureza, e não se adapta a ambientes artificiais de domesticação. Por isso elas são mantidas em seu ambiente natural. E, se alguém quiser sua lã, que vá buscar. Por isso é tão cara. Além disso, é uma lã muito, muito fininha, e também muito sensível. Requer cuidados especiais, e não é fácil de se trabalhar com ela.

Hoje, no entanto, alguns humanos deram um jeito de conseguir a tal lã. Deixam as vicunhas soltas em determinadas áreas pelos campos andinos, e conseguem uma relação tranquila. Parece que está funcionando. Mas ainda sai caro o produto final.

Fale-nos sobre a família dos camelídeos…

Bem, nossa família se chama camelidae, e compreende os chamados mamíferos artiodáctilos ruminantes. Somos animais exclusivamente herbívoros, e temos um aparelho digestivo com três câmaras (isso nos distingue dos demais mamíferos ruminantes, como a vaca, por exemplo, que têm quatro câmaras digestivas). Outro traço que nos diferencia é o lábio superior, que é dividido em duas partes; um dente a mais no maxilar superior; e células sanguíneas elípticas, em vez de circulares.

Nossos principais representantes são o camelo, o dromedário, a lhama, a alpaca (eu!), a vicunha e o guanaco. Vivemos espalhados pelo mundo, já que temos parentes na América do Sul, África e Ásia.

Herbívoros, hein? Bacana, eu sou vegetariano.

Maneiro. Gostamos muito dos humanos vegetarianos, por razões óbvias. Mas tem quem goste de mandar vê na nossa carne. Entendemos. Mas é complicado.

Vocês, camelídeos, têm uma boa carne?

Como vou saber? Eu nunca comi, zé mané! Mas ouço alguns humanos comentando o assunto. Dizem eles que, dentre as carnes vermelhas, a da lhama é uma das mais magras. Colesterol quase zero. Não é muito macia, mas é saborosa. Já a carne de alpaca é mais suculenta. É o que dizem por aí.

Bem, mas você precisa entender que comer carne, na sociedade contemporânea ocidental, é um hábito consolidado. Talvez não haja mal nenhum nisso… É preciso respeitar a opção alimentar de cada um, não é mesmo?

Sei lá, viu? Nós, alpacas, somos a favor do vegetarianismo. Mesmo sabendo que nossa carne é bem cobiçada. Isso é bom por um lado, pois valoriza nossa presença nos Andes. Mas, por outro lado, é triste saber que algumas de nossas irmãs estão sendo criadas unicamente para que, um dia, sejam mortas para terminar suas existências no prato de algum humano egoísta e faminto. Ficamos muito tristes quando nos tratam como mera comida. Somos seres sensíveis e afetivos, e nos deprimimos ao perceber que alguns nos criam para um dia nos devorar. Pergunta pras criancinhas se elas teriam coragem de nos comer? Nunca, pois elas são amáveis e sabem retribuir o nosso carinho! Alpacas são bonitinhas demais para terminarem em garfadas cruéis.

Hum, é complicado. Algo a dizer sobre os turistas brasileiros?

Eles são gente boa. Tem aqueles que falam um portunhol canhestro de quinta categoria (tipo você), mas não dá nada. É divertido. No geral, gostamos dos hermanos brasileiros e latinos de forma geral.

E quanto aos europeus e norte-americanos?

Depende. A maioria é gente fina também. Mas tem uma piazada que me dá nos nervos. Tenho visto – é muito comum – os jovens com 20, 25 anos que saem por aí nessas jornadas para curtir a vida. Estadunidenses, europeus, australianos, israelitas, japoneses… Para muitos, viajar é parte da própria cultura, um hábito social secularmente enraizado. Mas para outros, viajar é só uma chance a mais para comprar e experimentar essas coisas ilícitas que ­­os humanos tanto apreciam (até mesmo os brasileiros, aliás. Acho que nunca vou entender isso). Ainda mais aqui no Peru, e na Bolívia também. A piazada chega e acha que já pode sair apavorando, fumando tudo, cheirando tudo. Pra eles, isso é uma forma de “liberdade”. Pra mim, que conheço a natureza e sou parte dela, é apenas uma forma de aprisionamento. Vocês, humanos, são esquisitos.

Bah, não venha com moralismo pra cima de mim, Anita. Deixa a piazada curtir…

Não é moralismo. É só um estilo de vida. Cada um na sua. Para nós, um dos valores mais caros ainda é o bem estar pleno, que envolve saúde e integridade mental (do contrário, aliás, não teríamos essa lã macia e sedosa que vocês compram, amigão). Tudo bem o pessoal querer chapar o coco, desde que não fiquem me pentelhando pra que eu entre na onda deles, saca?

Entendo. Falando nisso, a coca atrai muita gente pra cá, não?

Sem dúvida. A folha de coca é parte de nossa cultura. Há milênios os povos andinos a usam para três finalidades: acelerar a circulação dos glóbulos vermelhos, melhorando assim a absorção do oxigênio aqui na altitude; amenizar a sensação de fome; e amenizar o cansaço, como uma espécie de estimulante natural. Nunca tivemos problemas com a folha de coca.

Acontece que é só o europeu chegar aqui, que já transforma uma tradição milenar em veneno. Tudo vira lucro, até mesmo o infortúnio de seus próprios irmãos. Fazem da coca uma fonte de destruição e degradação para sua própria sociedade – humanos são muito burros. Basta misturar acetona e mais algumas porcarias, que a coca (outrora sagrada para os povos andinos) se transforma em cocaína (sagrada para o lucro do mercado internacional do tráfico).

Com uma tonelada de folhas, se pode extrair talvez um grama de cocaína – vendida na Europa por algo entre 50 e 75 euros. Aqui é bem mais barato, evidentemente. Menos da metade disso.

Assunto complexo a tal da coca…

Pois é. Fico muito de cara com certos aspectos da sociedade contemporânea. O mais irônico é que alguns ainda chamam isso de “progresso civilizatório”. Que progresso é esse? Fluxos econômicos opressores e desiguais que mantêm a pobreza do sul e garantem o sucesso do norte? Bem, isso não funciona, porque esse “sucesso” se torna frágil a partir do momento em que observamos manifestações sociais as mais doentias – como um consumo cada vez mais insano de antidepressivos, índices de suicídio que dançam muito acima da linha do razoável, competitividade excludente em todos os setores da convivência… Assim são as sociedades ditas “evoluídas” de nossa era. Suécia, Japão, Estados Unidos, Canadá e por aí vai. São os tais dos países ricos. Civilização do progresso? Que grande piada!

Uau! Sua avaliação acerca de nosso desenvolvimento civilizatório não é das melhores.

Não é pra menos.

E as civilizações do passado? Vamos falar agora sobre os antigos povos andinos. Além dos incas, muitas outras civilizações incríveis habitaram o altiplano, confere?

Sem dúvida! Os livros de história estão repletos de referências aos incas. Mas esquecem de mencionar as demais civilizações incríveis que habitaram essas terras altas. Veja: os incas passaram a ter alguma relevância solamentea partir do século treze. O que, em termos arqueológicos, é super recente. Temos uma história conhecida de mais de quatro mil anos, desde os povos nômades que inicialmente habitaram nossa terra – os conhecemos hoje como Viscachani, que, segundo alguns, estiveram por aqui desde dez mil anos antes de Cristo!

Talvez o povo mais fascinante que pisou nessas terras foi o que deu origem à civilização tiwanaku – que teve seu florescimento por volta de 1580 antes de Cristo; e seu declínio por volta de 1200, já na era cristã.

Tiwanaku! Legal. Estive em um museu dedicado a essa cultura, próximo às ruínas dessa civilização, lá na Bolívia.

Sim, um museu bacana. Se bem que o governo boliviano merece um puxão de orelha, já que alguns crânios que estavam lá tiveram de ser removidos. Sabe por quê? Porque tinha goteira (sim, GOTEIRA) no interior do museu, bem no local onde estavam preservados os artefatos. Situação bizarra, descuido total com o patrimônio arqueológico. Mas espero que isso esteja mudando.

Ruínas de Tiwanaku

O que te fascina tanto a respeito da civilização tiwanaku?

Foi um povo muitíssimo interessante. Dominavam técnicas avançadas de metalurgia. “Tá, e daí?”, você vai perguntar. Acontece que, mesmo com esse domínio, jamais se encontrou qualquer vestígio de material bélico nas escavações arqueológicas. Nada de armas; apenas artefatos agrícolas, utensílios cotidianos. O que isso significa? Para alguns arqueólogos, significa que se tratava de um povo extremamente pacífico.

Há indícios também de que era uma sociedade matriarcal e igualitária, muito diferente do que estamos acostumados a ver e ouvir por aí. Viveram em um território que abrange mais ou menos 600 mil km aos arredores do Titicaca.

Outro aspecto interessantíssimo dessa civilização é a deformação de crânios. Ao redor das cabeças de certas crianças, eram colocadas faixas e moldes, de forma a direcionar o crescimento do crânio para que este atingisse uma determinada forma mais alongada do que a natural. Acredita-se que as crianças submetidas a esse processo eram selecionadas a dedo pelos velhos sábios, que nelas viam potencial para futuramente exercer funções estratégicas na sociedade. Assim, o crânio alongado era uma forma de distinção social. Mas, na verdade, existem várias teorias que tentam explicar as razões desta prática – observada em diversos povos pré-incaicos. Ainda é um mistério, que torna ainda mais fascinante a visita aos vestígios da civilização Tiahuanaco!

Uau!

É. O pessoal era fera. E ainda tinha uma medicina de primeiríssima.

Anita, algum recado para os visitantes brasileiros, especialmente para os leitores de O Viajante?

Sim! Quando visitarem os Andes, não esqueçam que essas montanhas são sagradas para nossa cultura. Levem para casa não apenas memórias das paisagens incríveis que temos aqui – nossos imponentes picos nevados, vales sem fim e planícies vibrantes. Levem também as lembranças do espírito ancestral das civilizações que aqui floresceram.

Você é tão sentimental…

Bah! Vai pastar, narigudo!

Anita despede-se e atravessa a rodovia. Adeus!

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Taquile

No lado peruano do Titicaca, a ilha Taquile é uma surpresa agradável. São povoados tradicionais que, com mais ou menos verdade, ainda mantêm seu modo de vida tradicional.

É um lugar tão bonito, tão colorido. Mas, ironicamente, em minhas lentes não pude capturar cores. Ao contrário, foram elas que me capturaram. Ou melhor, me aprisionaram! Cores inesquecíveis – que, num ato confesso de egoísmo, insisto em guardar na minha própria memória.

Os matizes vibrantes de uma beleza indizível se tornam essências nos tons escuros de meus próprios medos, enquanto as formas impermanentes de um passado-futuro se traduzem nos tons claros-esbranquiçados de minhas asas.

São essas minhas impressões da ilha Taquile. Um paraíso da vida no Titicaca; um presente ancestral no espaço-tempo de minhas lembranças.

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A iguaria de Puno

Quem diria! Cabeça de ovelha é uma iguaria boliviana. Digo, peruana (esse vai-e-vem-vem-e-vai às vezes confunde minha orientação geográfica). Acabo de chegar em Puno, e decidi dar uma passadinha pelo mercado central. Experiência antropológica inusitada. Entre as “delícias”, acho que a mais esquisita é essa tal cabeça de ovelha.

Cabeça de ovelha, uma das “delícias” de Puno

Mas afinal, como se come isso? “Oras, é simples”, me diz a senhora da venda. Anota aí:

1. Tu vem até o mercado e compra uma dessas apetitosas cabeças. Cada uma sai por 10 soles (escreve-se “s/10”. Esse “s/” é a notação da moeda peruana. Na cotação de hoje, R$1 sai por s/1,68. Ou seja, uma boa cabeça sai por quase 6 pilas).

2. Leva a cabeça pra casa. Aí tu pega aquele facão antigo do teu avô, bem afiado, e corta ela em quatro partes. Sem piedade. Essa é a parte difícil, já que o osso é bem duro. Mas com alguma insistência, e um tanto de força, tu consegue na boa.

3. Coloca a água pra ferver.

4. Na água, joga a cabeça, em pedaços e desmiolada. Diz que sai uma gosma de dentro, que, reza a lenda, é o cérebro.

5. Na água, adiciona algumas batatas. Bastante sal, pimentão, e temperos a gosto.

6. Espera umas três horas, e pronto. Durante a fervura, os miolos derretem todos. Segundo a tia, é o que dá à sopa um sabor único. Os olhos também, derretidos, dão ao caldo um toque bacana.

7. Chama alguns bons amigos; arruma a mesa; e agora é só servir.

Eis a janta de hoje, iguaria da casa. Se eu provei? Claro que não – já que essa sopa não é a melhor pedida pra um vegetariano. Em todo caso, fica a dica pros amigos onívoros: a saborosa sopa de cabeça de ovelha à la peruana.