La Paz: o Mercado das Bruxas

La Paz é um microcosmo étnico peculiar. Ainda que imperem os mesmos vícios de qualquer cultura urbanoide semi-caótica, aqui cada esquina revela  a beleza dos traços originários de uma cultura ancestral. Bueníssimo! Que antropoaventura-geográfica-universal! Mesmo imersos na sedução dos modos de ser da modernidade, quechuas e aymaras orgulham-se em mostrar ao mundo a essência de sua ancestralidade. É o que temos a aprender com eles. E, aliás, é do que nós, brasileiros urbanos rendidos, temos de nos envergonhar – pois historicamente apassivamo-nos diante do expansionismo cultural yankee. Entregamos o ouro, vendemos a essência de nossas almas e de nossa cultura. Interessante. Pois bem, interessante foi a prosa que tive com um de meus guias. “Os quechuas e aymaras jamais se entregaram”, dizia o rapaz. “Não se renderam aos incas; não se renderam aos espanhóis; e, modernamente, não se renderam ao modo de vida americanizado e capitalista imposto pelos irmãos do norte.” Testemunhei tais palavras. Foram pronunciadas pela boca de um experiente guia colombiano de educação francesa que radicara-se na Bolívia. Verdadeiro estudioso e apaixonado pela cultua andina.

Eis que, numa das espiadas externas, dei um pulo no famoso Mercado de las Brujas. É uma das atrações de La Paz. Artigos de feitiçaria, ervas, coisas estranhas e até mesmo fetos de lhama. Sim, fetos de lhama – são oferendas aos deuses.

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Barriga cheia

Essa empreitada de travel-writer tá me causando um sério distúrbio gastronômico-alimentar. Hoje jantei TRÊS vezes!

Lá estava eu, perambulando nas ruas de Nasca – ou Nazca, acho que até hoje os peruanos não decidiram se é com S ou com Z – com uma lista de restaurantes pra avaliar. Oito e pouco da noite.

Primeira parada: um restaurante na esquina. “Garçom, por favor, Papas a la Huacaina”. Prato típico do Peru. Uma delícia! Mas sou suspeito pra falar, já que sou fã incondicional de batatas. Ok. Primeira janta, missão cumprida. “Obrigado pela cortesia, e até a próxima.”

Segunda parada: restaurante na frente da praça, considerado um dos melhores de Nasca. “Garçom, por favor, uma sopa de aspargos.” Prato típico da província de Ica, muito gostoso! Ok. Segunda janta, missão cumprida. “Obrigado pela cortesia, e até a próxima.”

Terceira parada: um restaurantezinho simpático, já no caminho de volta. “Garçom, por favor, um sanduíche vegetariano”. Excelente, talvez o melhor sanduba de Nasca. E, pra encerrar, um generoso capuccino gelado – bem refrescante, daqueles em estilo milk shake. Ok. Terceira janta, missão cumprida. “Obrigado pela cortesia, e até a próxima.”

Assim foi minha noite em Nasca. De dia sobrevoando as linhas (passeio legal), de noite engajado na difícil tarefa de avaliar restaurantes (passeio ainda mais legal). Mas tem suas conseqüências: aqui estou eu, empanzinado, rolando de um lado pro outro numa odisséia de digestão. Aiai…

Pecado da gula? Claro que não. São os ossos do ofício. Acho que trabalhei demais hoje.

As interessantes linhas de Nasca

A magia do Titicaca

No momento em que escrevo essas linhas, estou consumido por uma adrenalina inefável. A altitude tem me afetado os miolos? Não sei. Apenas garanto: fui dominado por uma intrigante mistura de êxtase e contemplação, hipnotizado pela magia desse lugar tão fabuloso e encantador que é o altiplano boliviano!

Fui arrebatado por tal sensação no exato momento em que meus olhos fitaram, pela primeira vez, o azul-profundo do Titicaca. Não pode ser um lago qualquer. Não mesmo. Sua atmosfera, sua energia, sua vibe… tudo remete a uma inevitável reflexão sobre passado, presente e futuro.

O Titicaca não reflete apenas vestígios de culturas incríveis que habitaram seus arredores. Suas águas refletem, também, os insondáveis mistérios do cosmos – que vagam silenciosos pelas profundezas do lago e pela superfície de sua memória.

Certo, talvez eu esteja exagerando em uma alucinação descabida. Mas – arriscando me enveredar por devaneios insanos de uma subjetividade aflorada – sinto que esse contato com o passado despertou em mim uma verdadeira nostalgia ancestral. Ouço ecos das culturas andinas.

Nossa civilização é um grão de areia nesse inebriante universo misterioso. Nossa civilização é uma brisa suave na cosmologia incerta dos infinitos.

Observatório astronômico Intiwatana, projetado pelos Tiwanacotas às margens do Titicaca

Imprevisto #2

Greve de ônibus. Ninguém entra, ninguém sai de Puno – cidade onde estou agora. Que beleza! O governo resolveu aumentar 10% no preço dos combustíveis. Foi o bastante pra despertar a ira dos motoristas e demais profissionais dos transportes.

Na prática, isso quer dizer que estou encalhado aqui. Depois de encalhar em Corumbá por caprichos da companhia de trem; depois de encalhar em Santa Cruz de la Sierra por bloqueios na estrada; é hora de encalhar em Puno por uma greve dos motoristas.

Imprevistos, imprevistos. É parte do jogo, parte da aventura, parte da vida.

Três minutos de fama

Parte 1 Yolosa. Uma cidadezinha no meio do nada, entre La Paz e Coroico. Lá estava eu, numa mesa de restaurante com meu bloquinho de anotações. Trajava aquela camisa branca, com a logo de O Viajante. E também o crachá. Pois é. Não mais que de repente, um sujeito me aborda e pergunta: “Ei, você é do pessoal daqueles guias O Viajante?”.

A última coisa que eu espeava era ser “reconhecido” naquele fim de mundo. Não digo que era um lugar absolutamente remoto, mas era um restaurantezinho bem sem-vergonha no meio do nada (Yolosa fica num vale subtropical interandino, ou seja, é um lugar encravado bem no meio da cordilheira, próximo de onde Judas perdeu as frieiras).

***

Parte 2 Fronteira entre Bolívia e Peru, cambiando um pouco de grana. Sento numa banqueta, aguardando meu ônibus. Duas senhoritas estão lado, e com gentileza perguntam: “Ei, esse crachá aí! Você trabalha pro guia O Viajante?”.

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Parte 3 Rodoviária de Puno, Peru. Enquanto pesquiso itinerários e tarifas de ônibus, vejo que uma menina aponta pra mim, comentando baixinho com uma amiga. Tímidas, elas se aproximam. Mas não falam comigo. Apenas cochicham entre si algo como: “Eu acho que sim, ele deve ser daquele guia amarelo que tem uma menininha na capa”.

Estrada mais perigosa do mundo

Adrenalina, paisagens exuberantes, perigo iminente! Assim é o caminho que liga La Paz a Coroico – a estrada mais perigosa do mundo! São 64 quilômetros percorridos de bicicleta. De um lado, a montanha; de outro, o penhasco.

Qualquer vacilo é mortal. Não por acaso, ano passado dois ciclistas morreram aqui. Ano retrasado, morreu só um. Na última década, foram 25 os que caíram ladeira abaixo – dos quais somente alguns foram resgatados com vida. Mas esses números não são tão assustadores, já que se referem somente aos ciclistas.

Na verdade, os mortos que jazem aqui são inumeráveis. Não se tem uma estatística oficial. Estima-se que, ao longo do século, mais de três mil pessoas tenham deixado suas vidas nesse caminho.

A alcunha sinistra de “estrada da morte” é antiga. Vem da década de 1930, quando milhares de paraguaios – prisioneiros da Guerra do Chaco – , sob regime de trabalho forçado, morreram na construção dessa estrada. Segundo lendas locais, as almas desses prisioneiros querem vingança, e por isso engolem às profundezas do vale os corpos daqueles que se aventuram por suas curvas.

Nas décadas que se sucederam, a estrada não foi menos inclemente. Muitos ônibus que se embrenhavam por estes tortuosos caminhos eventualmente encontravam seu destino final – o abismo. Em alguns pontos, as quedas chegam a mais de 600 metros.

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Outrora tragédia, hoje atração. É claro que ciclistas do mundo inteiro vêm até aqui pra desafiar essa estrada. A excitação é unânime! Não há como não vibrar com as descidas alucinantes, em algumas das quais se pode atingir, sob duas rodas, 70 Km/h.

Sim, é bem perigoso, mas a paisagem compensa. Cascatas em véu, picos nevados, florestas exuberantes. Frio, calor, velocidade, contemplação e perigo. Tudo em menos de quatro horas!

A estrada da morte é com certeza uma das experiências mais intensas que se pode ter na Bolívia!

Essa é uma foto antiga. Hoje o acesso só é permitido a ciclistas – e vãs de apoio, que coordenam as excursões. Para os demais veículos foi construída uma nova estrada, bem mais segura (isto é, segura para os padrões bolivianos)

A máfia francesa

O gerente de uma agência em La Paz me manda um email. “Henrique, podemos te oferecer duas noites em um dos melhores hotéis da cidade. E todas as refeições também. Além disso, depois te levamos pra mais duas noites em Copacabana e uma na Ilha do Sol. Tudo incluso: estadia, transporte e alimentação.”

Barbada. Era um francês chamado Pierre, dono da agência Lipiko Tours. O cara foi gente fina, e me quebrou um baita galho nos últimos dias aqui na Bolívia. Muita mordomia, hotel de primeira e rango melhor impossível. Até um guia particular ele me arranjou (um ótimo guia, aliás).

Certo, a agência era de um francês. O hotel que ele me arrumou era de outro francês. Os restaurantes, também de franceses. Já o hotel em Copacabana, era de um austríaco, muito amigo do pessoal francês. Quanto ao restaurante em Copacabana, bem, era de uma boliviana; mas que falava francês. O guia? Um colombiano naturalizado boliviano, educado em uma escola francesa.

“Monsieur Pierre, vocês, franceses, são bastante unidos aqui em La Paz, não?”, comentei brincando. “Sim, sim. Chamamos de ‘French connection’. Mas, se preferir, pode chamar de ‘máfia francesa’.